“Ignorância, Religião e Redes Sociais: As Ferramentas do Autoritarismo no Século XXI”

Este tema expõe com precisão o retorno de práticas nefastas, que já deveriam estar sepultadas pela história, mas que encontram terreno fértil na ignorância manipulada e potencializada por interesses sombrios.
Este fenômeno, lamentavelmente, não é novo. É um ciclo que se repete em diferentes sociedades e períodos históricos, favorecendo sempre aqueles que se beneficiam da exploração, da opressão e da manutenção de um status quo que privilegia poucos em detrimento de muitos.
A) O Culto à Ignorância e a Preservação da Classe Dominante
A ignorância nunca foi uma falha meramente individual, mas um projeto político.
Manter o povo alheio ao conhecimento crítico é uma estratégia das elites dominantes para perpetuar suas posições de poder.
Um povo ignorante não questiona, não reivindica seus direitos e se torna presa fácil de discursos manipuladores.
Essa alienação planejada vem sendo reforçada por governos e líderes que têm como objetivo enfraquecer as instituições democráticas, atacar a liberdade de imprensa e desqualificar o conhecimento científico.
Quando o obscurantismo toma o lugar da razão, o fanatismo cega as massas e legitima a violência.
E é precisamente isso que favorece as classes dominantes: o povo, alienado e sem consciência crítica, torna-se defensor de seus próprios algozes, atacando aqueles que ousam pensar diferente.
Esse culto à ignorância não é espontâneo — é um projeto meticulosamente articulado por quem detém o poder e teme perdê-lo.
B) Religião como Instrumento de Controle e Alienação de Massas
Ao longo da história, as religiões desempenharam papéis decisivos na manipulação das massas e na manutenção das estruturas de poder.
As grandes religiões monoteístas, em particular, consolidaram o discurso de submissão às autoridades políticas e religiosas como um mandamento divino.
No século VII, o Islã expandiu-se sob a bandeira da “guerra aos infiéis”, legitimando conquistas militares em nome de Alá. Da mesma forma, a Igreja Católica foi responsável por atrocidades como as Cruzadas e a Inquisição, que torturaram e mataram aqueles que se recusavam a submeter-se à fé cristã.
Atualmente, esse controle continua com novas roupagens.
As igrejas e seitas neopentecostais, por exemplo, lucram com o comércio da fé e propagam a chamada Teologia da Prosperidade — uma doutrina que prega a prosperidade material como um sinal da bênção divina.
Enquanto enriquecem, seus líderes reforçam a alienação de fiéis, pregando que questionar o poder é um pecado e que a salvação está condicionada à obediência e ao dízimo.
Assim, a religião continua sendo utilizada como um instrumento de opressão, desviando o foco das verdadeiras causas da desigualdade e da injustiça social.
C) Redes Sociais:
Como bem disse o filósofo Humberto Eco, as redes sociais não criaram a estupidez — apenas deram voz aos imbecis. No passado, as ideias preconceituosas, odiosas e irracionais eram confinadas a pequenos círculos.
Hoje, com a popularização das plataformas digitais, qualquer um pode disseminar desinformação, ódio e preconceito, atingindo milhões de pessoas em questão de segundos.
O problema das redes sociais não é apenas a proliferação de mentiras, mas a forma como elas são consumidas.
Em um mundo onde a leitura crítica e o raciocínio reflexivo são cada vez mais raros, o público tende a aceitar como verdade qualquer informação que confirme seus preconceitos.
As fake news se tornaram armas poderosas nas mãos dos manipuladores, que usam essas plataformas para fomentar o ódio, dividir a sociedade e desmoralizar instituições democráticas.
Porém, as redes sociais não criaram essa mentalidade retrógrada. Elas apenas potencializaram um processo que já estava em curso, agravando a alienação e reforçando o culto à ignorância. O resultado é que a violência simbólica e real se normalizou, e o ódio passou a ser visto como uma forma legítima de ação política.
O que estamos assistindo hoje é a perpetuação de um projeto autoritário, baseado na ignorância, na manipulação religiosa e na disseminação de ódio através das redes sociais.
Essa combinação é perigosa, pois legitima a barbárie, colocando em risco os avanços civilizatórios que custaram séculos de luta.
Cabe a nós, que ainda acreditamos em valores humanos, resistir.
É urgente defender o conhecimento, a ciência, a educação crítica e a democracia, para que não sucumbamos a essa onda de retrocessos. Afinal, como dizia Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.”
E estamos vendo esse sonho se realizar diante de nossos olhos — é preciso reagir antes que seja tarde demais.
Por Osvaldino Vieira de Santana