Mercantilismo Partidário: A Ruína da Democracia

Mercantilismo Partidário: A Ruína da Democracia

Mercantilismo Partidário: A Ruína da Democracia

30/10/2024

Por Osvaldino Vieira de Santana

A prática do “mercantilismo partidário” tornou-se uma realidade alarmante na política brasileira, enfraquecendo as bases democráticas e afastando o poder do povo. Em uma época em que se idealizou uma democracia participativa e representativa, os partidos políticos são hoje dominados por figuras que os tratam como extensões de seus próprios interesses empresariais e pessoais. Em vez de ser um espaço de construção coletiva, muitos partidos políticos se transformaram em “feudos” privados, em que os dirigentes atuam como verdadeiros senhores feudais modernos.

Essa prática lembra a conduta dos “mercadores da fé” criticados na época de Jesus Cristo, que expulsaram os vendedores do Templo de Jerusalém, um espaço de espiritualidade, para se tornarem um centro de comércio e corrupção. O relato bíblico em Lucas 19:46, em que Jesus repreende os mercadores afirmando “A minha casa será uma casa de oração; vós, porém, a fizestes covil de salteadores”, ecoa em paralelo ao cenário político atual, onde vemos partidos se afastando de seus princípios ideológicos em troca de interesses particulares.

O Mercantilismo e o Preço da Democracia

O controle empresarial dos partidos não é apenas uma questão de princípios: ele atinge diretamente a qualidade da democracia brasileira. Ao afastar-se das bases, os partidos políticos tornam-se ferramentas de poder, desmotivando a participação popular, que é um dos pilares da democracia. A falta de eleição democrática para cargos de liderança dentro dos próprios partidos reforça o distanciamento entre os políticos e a população, minando o debate público e transformando a política em um jogo de interesses pessoais.

Esta prática também agravou a disparidade social e econômica. Líderes autocráticos e corporativistas usurpam o poder dos partidos que, originalmente, deveriam defender os interesses da população trabalhadora e os valores democráticos. Leonel Brizola, notável por sua defesa do trabalho no Brasil, já alertou para o perigo do “bezerro de ouro” na política, referindo-se à idolatria do lucro acima dos valores sociais. O distanciamento dos ideais de liberdade de pensamento e do debate enfraquece conquistas históricas, como a transição do trabalho escravo para o trabalho livre, e abre portas para regimes autoritários.

Aprendizados da Democracia Ateniense

Para entender o contraste com a situação atual, é útil relembrar o modelo democrático ateniense, fundado em 508 aC por Clístenes. A democracia de Atenas promove a isonomia (igualdade de justiça para todos), a isotimia (abolição de títulos hereditários) e a isegoria (direito de todos os cidadãos de se manifestarem em assembleias populares). Essa experiência histórica demonstrou que uma sociedade democrática desenvolveu a participação coletiva e a liberdade de interesses públicos acima do privado.

Na democracia de partidos modernos, o que deveria ser um espaço para o desenvolvimento da cidadania e do bem comum tornou-se um balcão de negócios, onde o poder econômico ditava as regras e decidia as pautas. Como afirmou Brizola, a idolatria ao “bezerro de ouro” nos partidos defende as causas trabalhistas e serve de esteio para interesses elitistas. A comparação com os “mercadores do Templo” destaca a perda de um sentido maior de missão nos partidos, agora ocupados por quem prefere negociar sonhos coletivos como se fossem mercadorias.

Em Defesa da Democracia: Um Chamado à Ação

A democracia brasileira depende de partidos políticos verdadeiramente representativos, guiados pelos princípios de inclusão e de igualdade, e não pelo lucro. Para reverter o cenário atual, é essencial que os dirigentes partidários sejam eleitos pelo voto direto, garantindo uma representatividade que respeite a diversidade de ideias e os interesses da maioria. Somente com essa renovação poderemos afastar os “vendilhões dos sonhos” e construir uma sociedade menos desigual e mais justa.

Esse “expulsar dos mercadores” precisa ser um processo contínuo e de coragem, repensando e reafirmando os alicerces democráticos. A história ensina que, sem liberdade de pensamento e debate, a democracia não passa de uma fachada. Que a nossa “casa” democrática volte a ser um espaço de justiça, igualdade e verdadeira representação popular.

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